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Monsenhor Alphonse Nagib Sabbagh.

Um monge. Dois sacerdócios.

Neste mês de setembro, Monsenhor Alphonse Nagib Sabbagh (foto) acaba de completar 89 anos. Em entrevista concedida à Almádena Editora, ele fala sobre a chegada ao Brasil, relembra os tempos em que viveu em sua terra natal – o Líbano – e compartilha uma peculiar leitura sobre seus 51 anos de Brasil.


Conversar com Monsenhor Alphonse Nagib Sabbagh é um exercício de flexibilidade, ou – quem sabe – uma rara oportunidade de “viajar” entre o simples e o sofisticado. É exatamente assim seu modo de pensar. Simples no sentido de extrair a boa essência das coisas, pessoas e situações. Sofisticado por ter o dom de elaborar as mais inusitadas leituras e interpretações dos fatos atuais.

 

Com a sabedoria de quem – muito em breve – completará nove décadas de vida, padre Alphonse surpreende pela sua versatilidade. Ele próprio se considera um “monge dedicado a dois sacerdócios” – o religioso e o acadêmico-cultural. Talvez seja esse dom que faça dele uma personalidade tão expressiva e especial, sendo uma das figuras mais queridas dos membros de diversas comunidades religiosas do Brasil.

Na tarde em que concedeu esta entrevista, Padre Alphonse nos acolheu gentilmente em sua residência, na Rua República do Líbano, onde também está a Paróquia São Basílio, no Rio de Janeiro. Ali, com a face voltada para a claridade da janela, o Monsenhor relembrou a primeira fase de sua vida, quando ainda vivia no Líbano.  

 

Nascido em Deir El Kamar, Padre Alphonse cursou seus estudos primários e secundários na escola episcopal instalada nesta mesma cidade, onde o ensino era ministrado em francês. Depois disso, ingressou no seminário Mosteiro Santíssimo Salvador, perto da cidade Jun.

 

Ainda muito cedo, teve a oportunidade de estudar na França. Lá viveu entre os anos de 1938 e 1945. “A França é – para mim – uma eterna atração. Eu que, como libanês, aprendi o francês ainda muito cedo... Além disso, muitas entidades religiosas francesas sempre atuaram em meu país de origem, o que acabou promovendo um intercâmbio cultural muito intenso”, considera ele.

 

Dois sacerdócios – Sem dúvida, a época em que viveu na França teve importante contribuição para sua carreira. “Lá, enquanto estive na Universidade de Sorbonne, em Paris, estudei duas outras línguas – o grego e latim. Já em termos pedagógicos, o que de mais importante aprendi foi como aplicar o idioma e a cultura árabes ao método de ensino francês”, conta.

 

Como sempre versátil, ainda naquele período, Monsenhor também atuou junto à imprensa. “Como a II Guerra Mundial ainda não havia terminado, acabei trabalhando na tradução do noticiário político para a Rádio Difusão Francesa ao mesmo tempo em que ouvia informações do mundo árabe e traduzia notas informativas para o francês”, detalha.

 

De volta ao Líbano, Padre Alphonse relembra que – em 1957 – um terremoto provocou uma grande destruição no Sul do Líbano. Não apenas seu mosteiro fora atingido, assim como inúmeras comunidades locais – a maioria de camponeses – também sofreram o impacto do desastre. Ele então, já como missionário religioso, passou a trabalhar arduamente no processo de reconstrução da região. Naquela época, não apenas como líder religioso, mas como cidadão libanês.

 

“Foi uma fase muito difícil. Grande parte de minha família já havia emigrado para cá. Então, como recompensa pela minha dedicação durante a fase de reconstrução, ganhei de meus superiores uma viagem de visita ao Brasil. Quando aqui cheguei, reencontrei minha família e decidi não mais voltar. Rapidamente, mandei o dinheiro, que seria da passagem de volta para o Líbano, para que fosse reaproveitado lá”, conta ele.

 

Coincidentemente, naquele período, a colônia sírio-libanesa do Brasil estava precisando de um padre. Então, ao mesmo tempo em que passou a exercer seu papel religioso, Monsenhor também se deparou com a possibilidade de ingressar para a academia. “O Arcebispo do Rio era D. Jaime de Barros Câmara. Foi ele quem me introduziu na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde – ao longo de um ano – lecionei as disciplinas de Cultura Religiosa e Língua Árabe”, explica.

 

Pouco tempo depois, em 1969, a convite do Professor Doutor Afrânio Coutinho, então Diretor da Faculdade de Letras da Universidade Federal da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Monsenhor cria o Setor de Estudos Árabes. Cinco anos mais tarde, já nomeado Vigário Geral dos Melquitas no Brasil, Monsenhor muda-se para São Paulo. Mesmo assim, dois dias por semana, estava ele de volta ao Rio de Janeiro, quando se dedicava às suas aulas na Federal.

 

Quando questionado sobre a origem de tal motivação para o desdobramento entre dois papéis – o religioso e o acadêmico – e mais, em estados diferentes, Monsenhor explica que apenas cumpria uma recomendação do Patriarca Maximus IV Saiegh, quem dizia: “o ensino da Língua Árabe faz parte da missão dos padres orientais no exterior”. E – como de costume – Monsenhor Alphonse não se furtou ao que escolheu como uma das prioridades de sua vida: lecionar.

 

Ainda sobre a UFRJ, o Monsenhor relembra que a criação do Setor de Estudos Árabes pode ser comparada a um “trabalho artesanal”. “Naquela época, não havia nada, nenhum recurso disponível para o ensino do idioma”, diz. No entanto, as dificuldades não foram empecilhos, mas sim fator de estímulo, de superação e de união de grandes nomes do ensino do idioma árabe no País. As histórias de vida de pioneiros docentes como Geni Harb e João Baptista M. Vargens se misturam à fundação do Setor de Estudos Árabes da UFRJ até os dias atuais. E neste cenário, Monsenhor esteve sempre como pilar, desempenhando – ao mesmo tempo – os papéis de líder, consultor e incansável pesquisador.

 

Para ele, elaborar dicionários também é a ação que melhor expressa a dedicação ao estudo e ensino de qualquer idioma. O primeiro deles – em Árabe-Português-Árabe – foi concluído em 1988, graças à máquina de datilografar com caracteres árabes, doada pelo Governo da Líbia ao Setor de Estudos Árabes da UFRJ. “Nosso trabalho era realmente artesanal. Quando encontrávamos alguma incorreção nas provas do dicionário, datilografávamos somente aquela letra ou palavra, recortávamos e colávamos em cima”, relembra ele sorrindo.

 

Já o segundo trabalho de pesquisa relacionado aos idiomas árabe e português se deu com a conclusão de seu Dicionário Português-Árabe, publicado pela Librairie du Liban Publishers, lançado em 2004. “Em certa ocasião, no ano de 1983, durante um congresso internacional para professores de árabe, sediado em Paris, nós – da UFRJ – tivemos a chance de conhecer os editores da Librairie du Liban, especializada em dicionários”, detalha o padre.

 

E continua: “Ali, conversamos sobre a possibilidade de co-produzirmos um novo trabalho. Imagine que foram 11 anos de dedicação para que eles então decidissem por, finalmente, publicar o dicionário, composto de 80 mil verbetes! Durante o processo, as atividades de organização, revisão e aprovação eram todas cronometradas. As provas das páginas faziam a rota aérea Brasil-Líbano e Líbano-Brasil a peso de ouro, mas sempre com data e hora a serem respeitadas. Isso tudo por mais de uma década”, enfatiza.

 

Para o Padre, além da grande satisfação de ter tido seu trabalho reconhecido e publicado no ano 2004, uma outra honra foi o encontro de épocas, quando do lançamento da primeira edição do dicionário no Brasil e do início do primeiro mandato do presidente Luis Inácio Lula da Silva. “Não é novidade para ninguém que os nossos dois últimos mandatos têm sido de vital importância para o estreitamento das relações entre o Brasil e os Países Árabes. Lula é um homem de sabedoria própria”, analisa Monsenhor.

 

E prossegue: “meu trabalho acadêmico-cultural é como o ofício de um monge. Ler, escrever, corrigir, pesquisar, rever, reescrever... É muito bonito, chega a dar grande satisfação, descobrir a sutil diferença que a Língua Portuguesa atribui entre o significado de uma palavra e outra, especialmente pelo fato de eu não ter nascido no Brasil”, comenta Monsenhor sobre sua tarefa diária rumo à conclusão de seu terceiro dicionário, Árabe-Português, a ser publicado – em breve – pela Almádena Editora.

 

E completa: “Hoje, com a tecnologia à nossa disposição, a produção editorial está muito mais fácil. Um dicionário que levamos 11 anos para concluir; agora, pode ser feito em um ou dois anos”. Dá para notar que Padre Alphonse mal pode esperar pelo lançamento de seu terceiro dicionário. E brinca: “para nós, padres celibatários, nossos livros são como nossos filhos”.

 

Hierarquia de Valores – Tendo dividido sua vida de 50 anos de Brasil em duas frentes – a religiosa e a cultural-acadêmica, Monsenhor relembra: “como religioso, como padre, trabalhei em São Paulo e no Rio de Janeiro, em paróquias, junto às comissões de ecumenismo e como juiz nos Tribunais Eclesiásticos. De modo geral, com espírito ecumênico de respeito, de entendimento, de compreensão e de colaboração com todas as outras religiões”.

 

Para ele, “religião é algo que não se discute”. E continua: “Religião é uma convicção de cada pessoa. Se houver afinidade entre diferentes opções religiosas, melhor. Senão, basta que um respeite o outro. O importante é lutar pela convivência, mas se ainda assim não for possível, então precisamos encontrar o caminho da coexistência”, conclui sabiamente.

 

Embora, segundo ele, religião seja um tema sobre o qual não se deva discutir, Monsenhor ressalta: “é a religião que dá sentido à vida das pessoas, é ela quem vai determinar a hierarquia de valores de cada um de nós. Isso eu aprendi e vivencio até hoje, todos os dias. Sempre me faço perguntas como: ‘Aqui, o que é mais importante para mim?’, ‘O que me é necessário agora?’, ‘Qual é a minha obrigação neste momento?’. São as mesmas perguntas que me refaço em diferentes situações, seja escrevendo um livro, seja dando aula, ou exercendo o sacerdócio”.

 

Tanta clareza de raciocínio, transparência de alma e senso de justiça fazem de Monsenhor Alphonse um dos padres mais requisitados para a realização de cerimônias sagradas, desde batismos até casamentos. Ele nos conta: “foi feita uma pesquisa no Orkut – em 2007 – na qual entrevistaram várias noivas. Na ocasião, buscaram identificar os padres mais solicitados por elas. Eu apareci entre os três mais ‘casamenteiros’ do Rio de Janeiro. Atribuo esta preferência à segurança que  tento passar aos casais”, considera ele.

 

E explica: “casamento é uma empreitada complexa, que envolve família, trabalho, economia, situação do país, entre tantos outros aspectos. Quando um casal me convida para celebrar seu casamento, não vou como moralista. Vou como amigo, como alguém que estará lá torcendo por eles. Tento fazer com que o próprio casal busque e encontre dentro de si a confiança que tanto necessitam para esta nova fase da vida”.  

 

Dia-a-dia – Além de dar conta de seus compromissos cotidianos, minuciosamente planejados e cumpridos, Monsenhor não abre mão das novidades e faz questão de estar ligado ao que acontece ao redor do mundo. Pela manhã, sua atividade favorita é a leitura do jornal Valor Econômico. Segundo ele, trata-se de “um veículo de comunicação que aborda as grandes companhias internacionais e o mercado de capitais de uma forma ética”. E comenta: “Às vezes, preparo minhas práticas e sermões, inclusive para casamentos e aniversários, em torno de matérias deste jornal”.

 

“A informação nos coloca em contato com o mundo. Quanto mais interligados estivermos, melhor para todos. Essa foi a filosofia que sempre adotamos enquanto coordenamos o Setor de Estudos Árabes da UFRJ. No entanto, esta idéia central se aplica perfeitamente aos demais campos sociais”, considera ele.

 

Depois de sua leitura matinal, Monsenhor Alphonse dedica parte de seu tempo à revisão do dicionário. Detalhe: com os olhos vivos como os de uma criança, ele conta que também está recebendo aulas semanais de informática e que espera – em breve – gerenciar sozinho sua conta no Gmail.   

 

Impressões – Um aspecto muito interessante notado durante a conversa com Monsenhor Alphonse é o sentido surpreendente que – de repente – ele confere a determinadas palavras.

 

Enquanto falávamos sobre ‘amizade’, o Padre identificou esta relação como um “entendimento silencioso entre duas pessoas e que ela (a amizade) pode ser considerada como uma conquista em nossas vidas”. Alguém já havia ouvido esta denominação antes?

 

Uma outra palavra comentada durante a entrevista foi ‘novidade’. Para ele, “novidades são sementes benéficas que vão gerar outras atividades”.  Segundo Padre Alphonse, a palavra “capacitação é mágica”, pois expressa “a transformação, a tendência, a vontade de ser e de fazer”.

 

Já quase ao final da entrevista, o Monsenhor relembra que a vida é mesmo uma luta. “Não podemos desanimar da marcha do mundo, estamos engrenados nesta ordem universal. Precisamos nos preparar para tal. Não adianta querer algo quando não temos condições. A melhor forma de atingirmos o que queremos é fazendo cálculos serenos, tranqüilos e realistas. E claro, estudando...”

 

Fica aqui uma mensagem de parabéns de toda a equipe da Almádena Editora e do Setor de Estudos Árabes da UFRJ ao tão estimado Padre Alphonse Nagib Sabbagh. Ele próprio se considera “brasileiro de coração”; mas, seu coração é – sem dúvidas – dotado de muita sabedoria e de respeito aos mais nobres valores universais.



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